Walter Feldman
   POR UMA COPA COM ALMA

            Aqui em Johannesburgo, fui conhecer o está da abertura da Copa das Confederações. Como estão os sul-africanos para a Copa do ano que vem? Atrasados, aparentemente, um pouco atrasados. Estradas, viadutos, estádio – tudo em construção.

            Mas nenhum participante da Copa das Confederações pode culpar o campo ou o estádio por alguma zebra mais fatal (Xô, Egito! Xô, Zidan!). Para o que importa, o futebol, as condições são boas.

            E, bonito de ver, o povo todo, nas ruas, nos estádios, preparando seu coração para a 2010, para a Copa, para o grande ano na vida deste velho, jovem país.

  De triste, o seguinte: no jogo de abertura, com o time da casa em campo, o estádio não lotou. Dos 60 mil torcedores esperados, só 48 mil compareceram. Que tinham em mente os organizadores quando jogaram o preço de alguns ingressos quase para a casa do cem dólares? Se ainda fosse um evento de rugby ou criquet, os dois esportes mais populares – depois do futebol.

            Vou observando, observando e aprendendo para a nossa Copa.

            Uma conclusão já posso adiantar: comparativamente, o Brasil já estaria, hoje, apto para receber a sua Copa. Nossa infra-estrutura esportiva e de logística já é naturalmente bem mais avançada.

            No que não se pode cair é nessa neurose de estádios perfeitos, caros, suntuosos – para a Europa ver. Gramados perfeitos, instalações confortáveis, higiene, segurança, até aí tudo bem para o que importa: a prática do futebol. Mas sem a neurose e a obsessão por arenas estratosféricas, de outro planeta. Nós somos o Brasil. Temos que brilhar principalmente com o que temos: futebol. Com nosso imenso e sincero amor pelo futebol. Sem isso, uma Copa pode ser tão grandiosa quanto sem alma.

            Aqui teve gente que, no jogo contra o Egito, pagou o que não podia só para ver o Brasil jogar.

            Amanhã, se Deus quiser, já estou em Portugal, pedalando. Nos vemos, se Deus quiser, no Bike Tour de Lisboa.



Escrito por Walter Feldman às 19h26
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   ÁFRICA, PAZ E MANDELA

Desde que assumi a Secretaria de Esportes em São Paulo, está lá escrito, em grandes letras, no portão de entrada do Pacaembu: “Cultura de Paz”.

Lá no portão e, acho, na minha vida também. Gosto muito dessa idéia, a paz não como um sonho distante, mas como algo a cultivar, a aprender, a praticar no dia-a-dia, em pequenos e grandes gestos.

Pois agora aqui estou na África do Sul para assistir a pelo menos alguns jogos da Copa das Confederações. Não vou dizer que lá na Secretaria e por onde eu ando as pessoas não agüentam mais. Não vou dizer isso porque a frase é muito bonita e muito verdadeira. Mas por onde passo e em tudo com que escrevo vivo citando uma frase de Nélson Mandela. Um dia, nos dos seus discursos, Nelson Mandela, o grande libertador e pacificador da África do Sul disse o seguinte: “A arte e o esporte tem o poder de mudar o mundo, o poder de inspirar, o poder de unir pessoas como poucos conseguiram. A arte e o esporte podem criar esperança onde antes só havia desespero. São instrumentos de paz muito mais poderosos do que governos”.

Dita por qualquer um esta frase já seria admirável. Mas pronunciada por um homem que passou 27 anos na cadeia e  um dia saiu não para dar o troco, mas para tentar reconciliar negros e brancos do seus país, a frase ganha uma grandeza e uma eternidade únicas.

Especialmente  para mim, que acredito na cultura da paz e trabalho com esportes, esta frase é mais do que uma frase, é uma bandeira e um sonho.

E agora aqui estou na terra de Mandela. África do Sul... Está friozinho e o único lugar do mundo onde a gente não espera é sentir frio é na África. No mais, tudo é calor. Nas ruas e nos estádios as pessoas estão felizes e orgulhosas em ver o mundo inteiro atento e sensível ao que aqui se passa. O país tem problemas, o desemprego é grande. Mas, como vocês puderam ver durante do jogo Brasil contra o Egito, a vibração na torcida é única. Todo mundo abraçado, cantando o tempo inteiro. Em tudo e por tudo, bate um vento de esperança. O Egito é que, como viram, quase estraga a nossa festa. O que é uma boa notícia: o futebol amadureceu no mundo inteiro, mais uma boa chance para a vibração e a paz. Apesar daquele final um pouco conturbado pelo pênalti (que houve), egípcios e brasileiros terminaram se confraternizando, trocando camisetas. Essa é guerra lúdica do futebol: soldados trocando as fardas, todos suados e de calças curtas, como meninos.

Vamos nos falar mais. Mas queria terminar com outra frase de Nelson Mandela. Ele disse também que ninguém nasce odiando e que, se ódio se aprende, o amor também pode ser ensinado. É, mais uma vez, a cultura da paz, a convivência desarmada entre os povos, pessoas, crenças e cores.

Que a paz ilumine esta Copa das Confederações na terra de Nélson Mandela.

 



Escrito por Walter Feldman às 16h54
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   TRUQUEIROS DO BRASIL

Quem já ouviu falar em Saboroso e Zé Capeta? Parece uma dupla de área de algum time remoto do Brasil, mas são apelidos de dois grandes campeões, não de futebol, mas de uma modalidade que hoje  merece o nome de esporte mental.

Saboroso, de Guarulhos, e Zé Capeta, de Cabrália, perto de Bauru, são campeões estaduais de truco. Com muitos e inimagináveis méritos.

   E olha que ser campeão estadual de truco não é fácil. Há 32 anos as finais reúnem mil duplas na disputa. Tudo começa com um lento, minucioso e vibrante processo de  classificação  nas cidades do interior.  Aqui chegam, para as finais no Estádio Babi Barioni, mil duplas para um mata-mata danado: ficam 500, 250, 125... Começa sábado de manhã e vai a noite de domingo adentro. Depois de 11 partidas disputadas,cada uma com duração de até mais de  duas horas, sai da dupla campeã. É a glória, é uma Copa do Mundo para gente como Saboroso e Zé Capeta.

  De três anos para cá, também sob a regência  da Associação Cuebla, é realizado, no Pacaembu, o Campeonato Municipal de Truco, disputado por 500 duplas, selecionadas em 12 etapas para um confronto final.

  Crescido em rodas de tropeiros, o truco foi ganhando a cidade, onde hoje apaixona milhares de pessoas de todas as idades.  E graus de instrução: um campeonato universitário reúne 500 duplas de todos os pontos do estado  e já chegou a  premiar os campeões com um Palio zero.

  Ressalto essa silenciosa força e ampla biodiversidade do truco porque, dias atrás, um jornal ironizou a Secretaria de Esporte por seu apoio a um simples jogo  de cartas. O que me chamou  atenção  não foram os números apressados e  equivocados da matéria, mas o preconceito contra um jogo tão difundido, tão envolvente  e que por ser brasileiro  e  popular  não é menos nobre ou desafiante do que  o pôquer e o bridge.

  Porque a verdade é que milhares de pessoas de todas as classes e condições sociais amam o truco, vibram e fazem amigos com ele. No interior do estado, ele  é uma febre inumerável e, na capital, pelo menos 7 mil praticantes se  apresentam para  as grandes disputas. Um jogo que pode sofrer distorções em certos ambientes, aliás como a internet, o futebol e a Bolsa de Valores. Mas o truco, o grande e forte truco do bem é em si mesmo agregador, confraternizador, vibrátil e divertido. E puramente recreativo: não se joga  por  dinheiro e o que mais vale é,  acima de tudo, o orgulho de vencer. Saboroso Zé Capeta são mais cultuados por aí do que se pensa.

   O truco é um jogo que privilegia a memória, o raciocínio, a afinidade com o parceiro. Claro que, como em todo o bom jogo, um pouco de esperteza e blefe sempre ajudam, mais tudo dentro de regras claras. Nele, quem reina mesmo são os sinais – com os dedos, os olhos, até os cílios. Truco é semiologia pura.

  Deu no New York Times: o mais recente estudo de neurologistas americanos sobre o envelhecimento do cérebro  apontou o jogo de cartas como um dos mais eficientes meios de preservar a acuidade da memória. Esses especialistas concluíram que a sonhada lucidez até o fim não é só uma questão de loteria genética, algumas horas de carteado por dia também podem ajudar muito. Sem falar   daquela  fraternidade toda que brota em torno dessas mesas. Uma das entrevistadas, Geórgia Scott, de 99 anos, declarou que não pretende abandonar o bridge tão cedo: “Foi  onde eu fiz  os meus melhores amigos”.

É isso aí, dona Geórgia. Saboroso, Zé Capeta e milhões de brasileiros concordam com a senhora.

Longa vida à comunidade truqueira do Brasil.



Escrito por Walter Feldman às 11h00
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